Ex-alunos Destaques
Isabel Kanji (maio/2011)

Nasci numa família muito especial onde a música era muito presente e cumpria um papel de integrar todo o conjunto familiar. Meu pai tocava viola e flauta doce e minha mãe tocava piano e violão. Cinco anos mais velho do que eu, meu irmão Alexandre, estudava violino com a Lola Benda. Volta e meia, minha mãe o acompanhava nas audições. Amigos músicos sempre vieram em casa tocar por puro prazer. Nas comemorações, cada um pegava alguma coisa para tocar, nem que fosse um chocalho. Então, tivemos em casa um curso completo de música. Cresci ouvindo música erudita para acordar, para tomar banho, para comer, para receber visitas, para ouvir e para dormir. Com meus irmãos Alexandre e Alberto, havia uma competição para saber quem era o compositor que estava sendo tocado, uma vez que a gente ouvia música quase todo o tempo. Com o passar dos anos, para o resultado da competição ser completo, precisávamos dizer a época, o compositor e o desempate ficava nos intérpretes! Dessa forma conheci sons de instrumentos diferentes do período renascentista, muita música barroca e também muitos quartetos de cordas, sinfonias clássicas e românticas.
Meu pai e meu irmão mais velho passaram a tocar na Orquestra do Porto Seguro, sob a regência do Maestro Moritz. Foi lá que meu irmão solou um concerto de Haydn para violino. Eu ainda queria estudar violino, mas ao completar 11 anos, meu pai me deu de aniversário uma fita cassete do compositor que veio mais tarde transformar a minha vida, a minha concepção do piano e da minha alma: Alfred Brendel, executando primorosamente as Fantasiestücke Op.12 e a Fantasia op.17 de Robert Schumann. Guiomar Novaes e Alfred Brendel formaram a minha concepção de som ao piano e me mostraram que quando se escuta um bom intérprete, não se pensa nisto ou naquilo, mas única e exclusivamente na música. E foi assim que comecei a tratar o piano mais seriamente e pedi para meus pais procurarem alguém para me dar aulas. Nos aniversários e natais seguintes foram motivos para descobertas e surpresas nesse sentido. Guiomar e Brendel não podiam faltar: sonatas de Beethoven, Canções sem Palavras de Mendelssohn, Kreisleriana, Kinderszenen, quinteto e quarteto para piano de Schumann foram os presentes seguintes escolhidos por mim. Fui formando uma discoteca própria e um projeto de execução pianística.
Em 1986, comecei a ter aulas particulares com a Edinah Strehler, amiga do meu pai e colega dele no conjunto chamado L’estro Armonico. Disse bem claramente que minha intenção era tocar Schumann. Ela deu risada e me disse que precisava começar com Bach. No final do ano seguinte estudei algumas peças do Álbum para a Juventude Op.68 de Schumann, entre outras coisas, além de Bach que é o pilar estrutural para qualquer músico.
Estudei no Colégio Visconde de Porto Seguro praticamente minha vida toda. O ensino primoroso da língua e cultura germânicas acabou por me influenciar por completo. Lá, pude entrar em contato com autores como Schiller, Goethe, Thomas Mann, Herman Hesse. Sendo exigência para os exames de língua alemã (Sprachdiplom I e II), tive que me concentrar no estudo, pois esses exames avaliam tanto o nível de conhecimento gramatical e a fluência da fala, quanto o conhecimento da cultura alemã. Então, apresentei trabalhos sobre as Óperas de Mozart, sobre Demian de Herman Hesse e outro sobre a poluição do meio ambiente em todos os aspectos e as possíveis soluções para se combater um desastre que assistimos dia-a-dia. Foi uma experiência e tanto! O Colégio também dispunha de aulas de música para o currículo alemão e eu era convidada a participar das audições. Frequentemente, tocava cravo e fazia música barroca com meu irmão mais novo, Alberto, que tinha começado a estudar violoncelo, e com uma amiga que tocava flauta doce (fizemos muito Tellemann, Vivaldi, Händel, Corelli e Corrette). Nessa época, o maestro era o Herr Stubbe, que focou a orquestra apenas nos alunos. Foi ele que me mostrou outro importantíssimo intérprete do piano: Wilhelm Kempf.
Paralelamente ao colégio, fiz aulas particulares com Jayme Guimarães, Maria José Carrasqueira e Paulo Gori. Entrei na ECA/USP em 1994 e passei a ter aulas com Heloisa Zani. Nessa época da faculdade, fui bolsista de iniciação científica (CNPq) e fui pesquisar o Álbum para a Juventude op. 68 de Robert Schumann, aquele que me fez tocar piano. Esse trabalho acabou encorpando e se transformando em um mestrado, do qual fui bolsista FAPESP (2000-2002). Foi aí que abordei todo o conhecimento adquirido no colégio, pois pesquisei a fundo a cultura alemã do século XIX, seus poetas, sua filosofia e, obviamente, a música do seu maior representante romântico.
Em 1998, ganhei duas bolsas da CAPES para estudar na UFRGS com dois renomados pianistas americanos: Ann Schein e Ian Hobson.
Mas a música do séc. XX é muito rica e maravilhosa. Passei a conhecê-la mais profundamente a partir das aulas com o compositor e professor da USP Willy Corrêa de Oliveira. Comecei a trabalhar suas músicas e apresentei várias primeiras audições. Em 2006, dois de seus alunos elaboraram um projeto chamado “Willy Corrêa de Oliveira: o presente”, do qual tive a honra de participar, gravando uma faixa ao lado de exímios pianistas como Caio Pagano, Fernando Tomimura e Lilian Tonella.
Em 2000, passei a trabalhar como pianista do importante Hotel Toriba em Campos do Jordão, cuja proprietária, D. Elisa Lenz Cesar, por coincidência, também foi aluna do Colégio. Passei a tocar para hóspedes ilustres e quando o Hotel completou 60 anos, gravei um CD para esta comemoração.
Em 2004, ingressei como pianista da Banda Sinfônica do Exército, sob regência do maestro Benito Juarez. Foi uma experiência muito forte, pois tive que ter treinamento militar junto com mais 21 músicos. Foi muito duro, mas engraçado também. Saí de lá em 2008, para ingressar no corpo de professores do Conservatório Municipal de Guarulhos.
E em 2007, soube que um grupo de brasileiros especialistas em música antiga voltava ao Brasil. O meu tio Ricardo, irmão de meu pai é flautista e lecionou no Conservatório Real de Haia por 26 anos. Ele é um dos responsáveis pelo movimento de música antiga no Brasil e, em parte, pela formação do meu gosto musical. Toda vez que nos visitava, trazia as gravações mais importantes do momento. Meus irmãos foram estudar na Holanda atrás da mais importante escola de música antiga da Europa, o que foi então decisivo para que eu me decidisse a fazer uma especialização no cravo. Com a vinda de tais músicos como Alessandro Santoro e Luis Otávio Santos, não havia mais dúvida. Ingressei na EMESP (Escola de Música do Estado de São Paulo), onde ainda estudo. Com toda a certeza, o estudo da língua alemã é importantíssimo para a leitura de textos ainda não traduzidos e que são imprescindíveis ao aprofundamento do estudo da música.
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