Ex-alunos Destaques

Luiz Ferreira Martins (Setembro/2011)

O último dos catedráticos

Ele concebeu a Unesp, da qual foi o primeiro reitor, tornou-se figura-chave para o Centrinho/USP e implantou a Pós-Graduação na FOB/USP

Luiz Ferreira Martins, 76 anos, não se preocupa em analisar sua carreira docente – de aluno do Curso de Veterinária à titularidade de Histologia e Embriologia da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB/USP). Aliás, sequer faz questão de ser reconhecido como um dos criadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Estamos falando de um brasileiro que deixou a zona rural da região de Itapetininga, interior do Estado de São Paulo, aos 12 anos, para abraçar a oportunidade única de estudar na “cidade grande”. Deu certo.

Com apenas 37 anos, foi lançado candidato à lista tríplice (relação nominal entre candidatos) para Reitor da USP. “Não entrei por um voto, mas aquilo era mesmo um despropósito”, conta Luiz Martins. Em 1973, foi convidado pelo governo estadual para assumir a Coordenação da Coordenadoria do Ensino Superior (CESESP) à qual eram subordinados os  Institutos Isolados da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, período em que criou a Unesp e foi responsável por sua implantação em 1976. Foi secretário estadual da Educação (79-82), cumpriu mandato de deputado federal (83-87) e participou da criação do Centrinho/USP, hoje Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais – HRAC.

Mas nada foi fácil. De família humilde, filho de Dona Eliza e do Sr. Paulo Martins, Luiz – o caçula de seis filhos – teve de se esforçar para concretizar seus objetivos. Nascido em 4 de junho de 1935, na Zona Rural de Engenheiro Hermilo, município de Itapetininga (SP) – hoje, Angatuba – estudou na zona rural até os nove anos de idade. Depois, foi para Tietê (SP) para prosseguir os estudos até os 14 anos, onde moravam seus avós.

“O fazendeiro para quem meu pai trabalhava tinha um cunhado que era diretor de um dos colégios mais importantes de São Paulo (Prof. Dr. Hamilcar Turelli – diretor geral do Colégio Visconde de Porto Seguro). Ganhei dele uma bolsa para realizar o chamado ‘científico’ (hoje, ensino médio) e, assim, tive a oportunidade de estudar em uma escola de alto nível.” Na época, Luiz Martins foi morar numa pensão na Vila Pompéia, capital paulista, juntamente com suas irmãs Aracy e Maria Cecília onde ficou por oito anos, mantido pelas mesmas. No colégio falava-se inglês, francês e alemão. “Eu não era obrigado a fazer alemão porque não havia iniciado o curso lá... Mas, francês e inglês eram matérias obrigatórias”, e foi muito difícil lembra. “Todos iam de carro para a escola, famílias de alto poder aquisitivo. Eu, evidentemente, ia de bonde”. Quando terminou o ‘científico’, em 1954, Luiz Martins prestou vestibular para a Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de São Paulo. Por que veterinária? “Embora tenha vindo da zona rural e tivesse contato naturalmente com a agropecuária, eu não diria que tinha vocação para veterinária. Uma coisa apenas era certa: minha tendência era para a área biológica”.

Vocação ou não, como aluno, se destacou e chamou a atenção do professor Antônio Guimarães Ferri, que acabara de se tornar catedrático e queria preparar sua equipe. Ao terminar o primeiro ano da faculdade, Luiz foi convidado para ser monitor de Histologia e Embriologia. A partir do segundo ano, continuou o curso se integrando também no grupo da cátedra de Histologia e Embriologia. “Desde então, como monitor não mais tive férias. Quando não estava nas aulas, me dedicava ao departamento ou à política universitária”. A política universitária era sua outra paixão.

Membro do Conselho Universitário por 24 anos seguidos - como representante de antigos alunos, de professores doutores, de livre-docente e como diretor da FOB/USP - Luiz Martins tinha ideais considerados conservadores e não deixava de se expressar e de lutar pelo que acreditava. Entre as curiosidades universitárias, no Conselho Universitário, fez dupla com Fernando Henrique Cardoso, com quem travava longas discussões por diferenças ideológicas. “O Fernando Henrique até me dava carona para casa,  mas, politicamente, nós éramos  inimigos íntimos”, confidencia. 

E aqui vai mais uma das informações que não agradam ao professor, mas precisam ser ditas para que se entenda melhor sua trajetória. Primeiro aluno da turma manteve-se, durante três anos como monitor, e bolsista da reitoria da USP. Terminando o curso, em 1957, recebeu convites para ficar na Faculdade (das cátedras de Histologia, Anatomia e Moléstias Infecciosas), optando por permanecer na Histologia. Depois de seis meses como bolsista, foi contratado como assistente, iniciando assim, sua carreira docente.

“Havia, naquela época, duas categorias de docentes: professor catedrático e assistente. Não havia carreira”, explica. Portanto, ou o docente tinha oportunidade de fazer concurso para catedrático quando abrisse uma vaga ou seria assistente a vida toda. ”O professor seguiu adiante com o objetivo claro de se tornar catedrático. Mas, para isso, era preciso surgir uma vaga, o que não aconteceria tão cedo, já que o cargo era vitalício e o professor catedrático da Histologia era muito jovem. Neste período fez doutoramento e livre-docência, tendo estagiado por 3 anos no Instituto Butantã, sob orientação do professor doutor Gastão Rosenfeld, que era chefe da Seção de Fisiopatologia.

Por estas coincidências ou obra do destino, um dos seus colegas do Conselho Universitário, Paulo Toledo Artigas, estava encarregado de implantar a Faculdade de Odontologia de Bauru e precisava compor o corpo docente. “Nessas alturas, eu era representante dos doutores no Conselho Universitário, já estava casado e tinha filhos”. E, mais um desafio lhe foi imposto: o convite para implantar o Departamento de Histologia e Embriologia da FOB. “Minha vida estava toda organizada em São Paulo, mesmo assim aceitei, afinal era disso que minha vida era e foi movida a desafios”.

A partir de então, semanalmente, passou a viajar o trecho São Paulo – Bauru (350 km), permanecendo três dias em cada cidade. Com casa montada na capital e no interior. “Os amigos brincavam que minha casa em Bauru era uma república de professores”, diz, lembrando-se que morou com os professores Luiz Casati Alvares, Guaraci Rosa, Sérgio Augusto Catanzaro Guimarães e Carlos Eduardo Pinheiro, pois sua esposa preferiu retornar a São Paulo com os filhos. Foi assim de 1964 a 1967.

Nesse mesmo período, nasceu uma produtiva parceria, a amizade com o Gastão (José Alberto de Souza Freitas, Superintendente do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofacial- HRAC- USP- Centrinho). “O ‘chefinho’ é uma das cabeças mais fantásticas que eu já conheci e um amigo para todas as horas”, declara tio Gastão, que se refere assim carinhosamente por ter com ele uma relação profissional muito íntima e, especialmente, por considerá-lo um mentor intelectual durante 47 anos de convivência.

Quando foi aberto concurso para professor catedrático na FOB/USP, Luiz Martins  passou pelo processo, e se desvinculou totalmente de São Paulo, assumindo o cargo em Bauru. O concurso hoje é para titular e não mais Catedrático. “Fui o último catedrático da Universidade de São Paulo. Depois que fiz o concurso, entrou em vigor a nova lei de Diretrizes e Bases da Educação que extinguiu a cátedra e criou o departamento, o qual pode ter mais de um professor titular, no mesmo nível hierárquico. A relação, portanto, passou a ser outra, já que antes cada cátedra contava com apenas um professor catedrático e assistentes subordinados. No mesmo ano, a partir de uma lista tríplice, foi escolhido para vice-diretor da Faculdade. Nessa época, sendo membro da Comissão de Orçamento e Patrimônio do Conselho Universitário obteve recursos para a construção do primeiro prédio do Centrinho/USP. De 1970 a 1974, foi diretor da FOB/USP, período em que ampliou por desapropriação, a área do campus para os atuais 160.000 m2, e implantou a Pós-Graduação na Faculdade. “O Brasil não tinha tradição nesse nível de ensino”, explica.

Sempre como professor em Regime de Dedicação Integral à Docência e a Pesquisa (RDIDP), publicou cerca de 70 trabalhos científicos em revistas especializadas nacionais e estrangeiras.

Ao todo, foram 35 anos dedicados ao ensino, à pesquisa e a atividades administrativas na USP e fora dela.

Tendo realizado o curso de Formação de Oficiais da Reserva - CPOR, arma de cavalaria, realizou dois estágios, sendo 1º Tenente R/2.

A Terceira Universidade

Em 1973, no final do mandato como diretor da FOB/USP, Luiz Martins foi convidado pelo então governador de São Paulo, Paulo Egydio Martins, com a tutela do secretário da Educação, José Bonifácio Coutinho Nogueira, para ser coordenador da Coordenadoria dos Estabelecimentos de Ensino Superior - CESESP à qual eram vinculados 15 institutos isolados – escolas públicas criadas pelo governo estadual e administradas pela secretaria da Educação. “De 1973 a 1975, com a colaboração dos diretores dos institutos, iniciaram-se estudos para a reorganização administrativa daquelas escolas”, relembra.  “Conclui-se que a melhor solução seria a criação da terceira Universidade Estadual (já existiam a USP e a Unicamp)”. A decisão exigia a adequação das escolas existentes, remanejamento de cursos e pessoal. “Os problemas foram muitos...”, pondera Luiz Martins, referindo-se a polêmica suscitada à época. Depois de muitos debates, a lei de criação da Unesp (Universidade Estadual Paulista) - nome sugerido pelo próprio professor e acrescido, por propostas do então presidente do Conselho Estadual de Educação, Moacyr Expedito Marret Vaz Guimarães, de “Júlio de Mesquita Filho” – foi promulgada em janeiro de 1976. Em 10 de março desse ano, nomeado pelo governador como primeiro reitor, tomou posse do cargo, exercido até 1979.

Durante oito anos foi membro e também Presidente do Conselho Estadual da Educação. Nomeado por indicação do Ministro da Educação, Dr. Ney Braga, pelo Presidente da República, para o Conselho Federal de Educação, com mandato de seis anos, exonerou-se depois de dois anos, para assumir o cargo de Secretário de Educação do Estado. Como Deputado Federal foi Vice-Presidente da Comissão de Educação e Cultura.

Foi lhe outorgado o título de cidadão pelas Câmaras Municipais de 54 municípios do Estado de São Paulo.

Ao término do seu mandato de Deputado, afastou-se por um ano, contemplado com bolsa da Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES – do Ministério de Educação, para realizar estudos sobre a Educação, em Portugal que resultaram em trabalhos específicos.

Aposentado em 1980, continua residindo em Bauru, dedicando-se à literatura.

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