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Pedro Eduardo Moreira (janeiro/2009)


Acima, vista frontal da casinha do jardineiro, localizada na entrada do terreno,
que serve como loja e bilheteria do Museu Max Liebermann.

Sem muros

Radicado em Berlim, o brasileiro PEDRO MOREIRA, arquiteto, historiador e Artista plástico, que deu forma ao Museu Max Liebermann, conquista a Medalha Europa Nostra – Prêmio de Patrimônio Histórico da Comissão Européia.
Matéria editada pela revista Casa Vogue do mês de outubro/2008 – Edição 278.

Radicado em Berlim, o brasileiro PEDRO MOREIRA, que deu forma ao Museu Max Liebermann, conquista a Medalha Europa Nostra, um dos mais importantes prêmios do velho mundo.

A vida de Pedro Moreira não é exatamente cadenciada. Fora do compasso, no ritmo acelerado de quem se acostumou aos embarques entre Berlim e São Paulo, lá está ele, com o sorriso aberto, o sotaque quase estrangeiro e a bagagem carregada de sonhos. Em meio ao buzinaço do rush paulistano, Pedro revelou parte de sua trajetória em entrevista exclusiva à casa Vogue, começando pela formação na faculdade de Arquitetura e urbanismo da USP, em 1987, até a chegada em Londres, no ano seguinte. Na Europa, atuou nas pranchetas de grandes escritórios,como no The Halpern Partnership e no de Zaha Hadid, ganhou uma bolsa de estudos em artes plásticas e se rendeu definitivamente à história. Para combinar tantos desejos, mudou-se para Berlim num momento que o muro dava lugar a uma geografia reunificada. Naquela cena mutante, encontrou também a companheira perfeita, Nina Nedelykov. Com afinidades de sobra, em 1994, abriram o escritório Nedelykov Moreira Architekten. Tempos depois, o projeto do Museu Max Liebermann, que consumiu mais de 3 milhões de euros e 11 anos de trabalho, foi determinante para a consolidação de sua carreira e a conquista da Medalha Europa Nostra, o prêmio de Patrimônio Histórico mais respeitável do velho mundo.

CASA VOGUE: Quais são as lembranças de seu desembarque na Alemanha?
PEDRO MOREIRA: Cheguei num momento em que “as Alemanhas” voltavam a ser apenas uma, e a paisagem resumi-a-se a um canteiro de obras. Logo me tornei uma espécie de “ponta de lança”, abrindo caminhos para outros profissionais sul-americanos. Organizei, ao lado da embaixada do Brasil, concursos, mostras e o intercâmbio de idéias. Na arquitetura, me engajei na recuperação dos espaços públicos e na construção de equipamentos esportivos, sendo a revitalização do estádio Olympiastadion, que sediou os jogos decisivos da Copa de 2006, um dos meus trabalhos mais significativos.

Como se interessou pela obra de Max Liebermann?
Trata-se de um dos mestres da pintura alemã dos séculos 19 e 20. De origem judaica, ele faleceu em 1935, antes da ascensão do nazismo, o que não impediu o desaparecimento de suas telas e a completa desfiguração da sua casa de veraneio. Transformar esta moradia em museu foi uma prova de que é possível adequar estruturas antigas e reconstruir espaços originais através de pesquisas e restauro.

O que foi feito, exatamente?
Basicamente tudo (risos)!. A primeira etapa foi entender quais as intervenções seriam essenciais para converter a residência em museu.
Tivemos que imaginar todo o processo de segurança, a conservação do acervo, o melhor trajeto para os visitantes e até o impacto que isso traria para a vizinhança, já que o lugar fica às margens do Lago Wannsee, no subúrbio de Berlim. Depois, com farto material histórico, remontamos os ambientes, o que permitiu a descoberta de um mural pintado por Max, escondido sobre 14 camadas de tinta. Para recuperar o jardim, construído de forma racional e geometrizada, seguindo o contorno do bosque de 300 metros de comprimento, numa clara alusão ao pré-modernismo, contamos com o paisagista especializado em jardins históricos, Reinal Eckert.

Pode descrever como ficou o Museu a partir do projeto?
A construção tem 900 metros quadrados divididos em quatro pavimentos, contando com o porão e o sótão. Mantivemos 200 metros quadrados para área expositiva, lojinha, sala para conferências ou concertos e um café.

Depois de tanto trabalho, dá para falar em recompensa?
Quando nos mobilizamos em prol da recuperação do espaço, éramos apenas sete pessoas. Hoje, somos mais de 1.400 associados. Inauguramos o Museu em abril de 2006, com a expectativa de receber 50 mil visitantes por ano – mas esse número já atinge 250 mil! Por conta da obra, disputamos com outros 109 projetos e ganhamos o prêmio Europa Nostra Award.

Esse projeto pode ser entendido como arte social?
Sim. Penso a arquitetura como a síntese que define um momento único e dá forma ao visionário. Qualquer projeto tem um papel direto na evolução da cidade e da população. Por mais genial que seja um arquiteto, ele não é solitário, precisa contornar sua posição política e a visão em relação ao meio que vive. Quando dá certo, a arte se torna o foco principal e aí, a arquitetura existe de fato; se isso não é levado em consideração, em vez de arquitetura, há uma mera prestação de serviço.

O que mais o atraí na arquitetura?
A sua multiplicidade. Por exemplo, estou envolvido no restauro do pavilhão de um teatro construído entre os anos de 1792 e 1798, para uso exclusivo da rainha da Prússia, e em estudos de urbanismo sustentável e arquitetura esportiva.

Quais os planos para retomar sua carreira por aqui?
Pretendo alavancar a parceria com o escritório GCP Arquitetos, do Sergio Coelho. Por enquanto, executo uma obra no sul do País e, mais adiante, penso na criação de um protótipo de intervenção para as periferias paulistas, baseado nos princípios da “acunpuntura urbana”, que é uma espécie de descentralização da infra-estrutura de serviços. Ainda sonho equacionar um programa de habitação social em larga escala, com investimentos privados.

Então, agora é a hora de redescobrir o Brasil?
Quando fui para Europa, buscava conceitos que ainda estavam tomando forma. Falava-se de sustentabilidade e da própria reinvenção da arquitetura. Lá, pude concretizar muitos sonhos, mas ainda enxergo um Brasil com olhos de Artigas: “É um novo mundo à espera da descoberta”.

NEDELYKOV – MOREIRA ARCHITEKTEN
www.nedelykovmoreira.com
MUSEU MAX LIEBERMANN
www.liebermann-villa.de

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