Ex-alunos Destaques
Romero Venâncio Rodrigues (novembro/2009)
Como surgem inventores. E milionários - por Gilberto Dimenstein
Romero Rodrigues transformou sua vocação para a informática em um negócio de US$ 342 milhões
Com o dinheiro que ganhava do estágio no Laboratório de Arquitetura e Redes de Computadores (Larc), da Poli, Romero Rodrigues conseguia economizar R$ 100 por mês, às vezes só dava R$ 50, para investir numa experiência em internet.
Com mais três colegas - dois da Poli, um da FGV -, aplicava R$ 300 mensais. Na semana passada, o que sobrou desse passado foram só os três primeiros dígitos. Uma parte da empresa foi vendida a um grupo estrangeiro por US$ 342 milhões.
A ideia surgiu quando eles, em 1999, perceberam que não havia na internet um jeito de comparar preços de produtos vendidos nas lojas. Nascia, assim, o Buscapé.
Perguntei a Romero sobre seu prazer de descobrir coisas. No relato sobre sua vida, dá para perceber o modelo que o ajudou a fazer tanto sucesso em tão pouco tempo - há anos registro casos de inovadores e, quase sempre, noto um padrão que se repete.
Antes que me confundam com escritor de autoajuda, vou logo avisando. Não vou dar uma receita, mas apenas mostrar que os inovadores de destaque têm pontos em comum.
Comecei perguntando sobre a infância. Romero lembrou-se da paixão que tinha por um brinquedo chamado "O Alquimista", que misturava produtos químicos. "Gostava tanto, mas tanto, que economizava cada gota dos vidrinhos. Foi, durante muito tempo, meu maior tesouro."
Puxando pela memória, ele se lembrou de que tinha mania de desmontar os aparelhos que encontrava pela frente e, depois, remontá-los - o que fazia de seu quarto uma espécie de laboratório. "Nada me seduziu tanto quanto o computador."
Aos 12, montou, sozinho, em casa, seu primeiro jogo no computador, em que bichos passavam por túneis.
Como se vê, Romero era um menino curioso e, desde cedo, desenvolveu o encanto pela experiência, encontrando uma vocação.
Aparece aí mais uma característica. O prazer não estava em ganhar dinheiro, mas em produzir novidades. "O dinheiro foi consequência." Na frente, estava um sonho que, ao contrário das empresas, tem uma contabilidade imaterial guiada apenas pela emoção. Dificilmente, ele não iria muito longe se fosse apenas um curioso. Ser criança, afinal, é ser curioso. Romero frequentou uma das melhores escolas da cidade de São Paulo (Visconde de Porto Seguro), onde teve as primeiras aulas de computação e a chance de mergulhar nos laboratórios. Sem isso, teria dificuldade de entrar na USP e obter uma base teórica sólida para fazer programação na internet.
Sabia, porém, transformar informação que vinha da sala de aula em conhecimento, ou seja, algo prático.
Notam-se curiosidade natural, inteligência acima da média para pelo menos uma área (no caso, a computação), boa formação escolar, apoio familiar. Mas falta algo - e, na minha visão, decisivo. Falta o mestre, aquela figura indispensável que ajuda a canalizar a curiosidade.
Quando lhe perguntei sobre os mestres que o estimularam mais, a resposta veio rapidamente: o pai, também chamado Romero. E também engenheiro. Não se incomodava com os aparelhos desconstruídos, espalhados pela casa. Pelo contrário, mostrava-se orgulhoso. "Via o esforço do meu pai em pagar a mensalidade."
Muitos dos colegas de Romero ganharam um carro quando entraram na faculdade. Com ele, foi diferente. O pai raspou as economias para dar-lhe um moderno computador.
Justamente com esse computador que, aos poucos, foi ficando velho, Romero montou o programa de buscas na internet, agora com 50 milhões de usuários - e, com isso, os R$ 300 mensais viraram, na semana passada, US$ 342 milhões.
É mais um exemplo a mostrar que nada pode ser mais importante num país do que o estímulo à inovação - é por esse ângulo que se pode medir a tragédia que significa a falta de professores em ciências e a incapacidade de mostrar como a teoria se aplica ao cotidiano.
PS - Coloquei em meu site (www.dimenstein.com.br) uma parte da minha coleção de entrevistados que se destacaram, alguns deles vivendo duras adversidades - todos sempre têm a história de um mestre para contar.
Alguns exemplos: Gilberto Gil, Fernanda Montenegro, Ziraldo, Maurício de Souza, Miguel Nicolelis, Ruy Ohtake, João Carlos Martins, Fernando Meirelles.
Folha de São Paulo, 04/10/2009, p. C.4.
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Os novos milionários da internet
Quem são os sócios do site de comparação de preços BuscaPé, vendido por 600 milhões de reais
Por Giovana Romani
09.10.2009

Quando as portas do elevador se abrem, no 12º andar de um prédio de escritórios na Vila Olímpia, lê-se na parede em letras garrafais: ‘Movido por pessoas que vieram para vencer’. Um clichê e tanto, não fosse ali a sede do BuscaPé, site criado por três estudantes de engenharia cuja venda milionária foi anunciada no último dia 30. O conglomerado de mídia sul-africano Naspers, sócio do Grupo Abril, comprou 91% da empresa por 342 milhões de dólares, o equivalente a 600 milhões de reais. ‘Sempre soubemos aonde queríamos chegar’, diz o paulistano Romero Rodrigues, sócio-fundador e presidente do BuscaPé. ‘Só não tínhamos certeza de qual seria o caminho a percorrer.’ O ponto de partida foi em 1998, quando Rodrigues cursava engenharia elétrica na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Na sala de aula, conheceu os também paulistanos Rodrigo Borges e Ronaldo Takahashi — não é coincidência o fato de todos eles terem nome começado com a sílaba ‘Ro’, pois a divisão das turmas era feita por ordem alfabética.
Aos 20 e poucos anos, decidiram que era hora de montar seu próprio negócio. Buscaram sem sucesso importar uma tecnologia de automação para segurança residencial e inventaram um software que permitia às pequenas e médias empresas registrar valores de milésimos de reais. ‘Mas a demanda era muito pequena’, lembra Rodrigues. Mais uma ideia mirabolante dos garotos: criar uma lotérica on-line. Desistiram antes de arranjar confusão com a Caixa Econômica Federal. ‘Um dia cheguei à faculdade comentando quanto era difícil comprar uma impressora pela internet’, afirma Borges. Veio o estalo. Durante nove meses, os aprendizes de Bill Gates desenvolveram um software que vasculhava os preços e a qualidade de diversas mercadorias oferecidas em lojas virtuais.
Cada um desembolsou 100 reais para pagar as primeiras despesas. Em 1999, entrava no ar o site de comparação de preços BuscaPé, com 35 lojas cadastradas e 30 000 produtos disponíveis. Hoje, ele reúne 600 000 empresas e 11,7 milhões de ofertas, de pente para cabelo (a partir de 40 centavos) a geladeira (a partir de 615 reais). Os fundadores discutiam madrugada adentro os rumos do site e tinham apenas um celular para contato. Não é exagero dizer que a sorte deles virou do dia para a noite. Em 2000, Rodrigues e Borges viajaram às pressas a Nova York, onde participariam de uma reunião. Saíram de lá com um investimento de 3 milhões de dólares do fundo americano Merrill Lynch, do qual permaneceram sócios até 2005. Foi aí que outro acionista, o Great Hill Partners, entrou com um novo aporte de capital. ‘Passamos para uma fase mais agressiva’, conta Rodrigues. De lá para cá, fizeram uma fusão com seu maior concorrente, o site Bondfaro, fundado pelo carioca Rodrigo Guarino, adquiriram e criaram novas marcas — entre elas o Pagamento Digital, plataforma para intermediar compras on-line que permite o parcelamento por meio de parceria com uma financeira.
O crescimento expressivo chamou a atenção do grupo Naspers, que comprou as ações de sete dos então onze sócios. Rodrigues, Borges, Takahashi e Guarino ficaram na empresa com os 9% restantes, avaliados em cerca de 60 milhões de reais. ‘Para nós quatro, nada mudou’, afirma Takahashi. Ou quase nada. A ascensão milionária fez do BuscaPé um fenômeno na internet brasileira e, de seus fundadores, estrelas do mercado. Os três criadores paulistanos moram em bairros nobres da cidade e estão conectados a seus smartphones 24 horas por dia. Romero Rodrigues, de 32 anos, ainda não voltou à rotina desde que as negociações começaram, há dois meses. Com a barba por fazer, em nada lembra o estereótipo nerd. O jeitão marqueteiro e despojado lhe rendeu o cargo de porta-voz do BuscaPé. Ele fala com alegria da boa fase, diz que está solteiro... Mas sabe a hora de ficar quieto. O faturamento anual da empresa, por exemplo, não é revelado. Mais tímido, Rodrigo Borges, 33 anos, é o vice-presidente de produtos. Vestindo calça jeans da grife italiana Diesel e camisa social, mostra preocupação com a superexposição. Ele se solta ao descrever as partidas de Nintendo Wii e de air hockey disputadas em uma sala da própria sede, na Vila Olímpia: ‘Sempre rola um desafio no fim do expediente’. O clima entre eles é de amizade. ‘Temos perfis completamente diferentes, mas sempre soubemos respeitar as virtudes e deficiências um do outro’, afirma Ronaldo Takahashi, de 34 anos. Dos tempos de Poli, o atual diretor de novos canais da empresa ainda carrega o apelido de ‘Japonês’. No último dia 3, os novos milionários da internet levaram suas famílias ao restaurante Carlota, em Higienópolis, para celebrar. Têm 600 milhões de motivos para isso.
Evolução nada virtual
Alguns dos números do site criado pelos estudantes de engenharia
600 000 lojas cadastradas
62 milhões de usuários por mês
11,7 milhões de ofertas disponíveis
13 milhões de preços levantados pelo software diariamente
2 centavos a 1,50 real é quanto as lojas pagam pelo clique em cada um de seus produtos oferecidos, independentemente de a venda ser ou não concretizada
300 reais foram desembolsados pelos sócios para a criação do site, em 1998
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